sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Entrevista com André Diniz

 Por Leandro Chiappetta

André Diniz disputa mais uma final na Vila.
Foto: Arquivo pessoal

Para estrear em grande estilo, oabrealas traz uma entrevista especial com o professor de História e compositor André Diniz, de 37 anos, que já faturou 12 vezes o concurso de samba-enredo da Vila Isabel. Ele nos contou um pouco da sua carreira e a expectativa para o Carnaval 2011.





Como você começou a compor sambas?

Comecei a compor por acidente. Eu ia fazer samba pra Vila com o Bocão (Evandro Bocão), mas, quem ia nos ajudar a escrever o samba era um cara chamado Adil, só que no dia que era pra fazer o samba ele viajou. Então o samba caiu no nosso colo. Como eu tocava cavaquinho e o Bocão cantava começamos a tentar fazer, foi então fizemos o samba do “Bonde” (1994). Tínhamos ganho um samba no Arranco em 1992, mas o samba é muito mais Adil do que Evandro e André, eu e o Bocão apenas acertamos uma coisa ou outra. O primeiro samba que nós realmente fizemos foi o “Bonde”, mas nós só fizemos porque o Adil viajou, se ele não tivesse viajado, nós iríamos colocar o nome e quem iria fazer samba era o Adil e o Bombril.

Você disse que fez o samba por um acaso, como você conseguiu fazer um samba “por acaso” e até hoje ele é considerado um dos melhores sambas da escola?

O samba do “Bonde” foi uma surpresa pra gente, foi tão inesperado que no ano seguinte nós não acreditávamos que poderíamos fazer sozinhos, tanto que continuamos a trazer gente pra nos ajudar a fazer os sambas. Trouxemos o MV que fazia samba na Rocinha, na São clemente. Ele não assinou, mas nos ajudou a escrever; um outro cara que fazia samba com a gente era o Eduardo Martins, da Estácio, também não assinava, mas, acabava também dando uma “pincelada” nos sambas. Ganhamos Prêmios também, o Estandarte de Ouro em 1994 e o papa Tudo em 1995.

Quantos sambas você já levou pra avenida?

Treze Sambas - 12 na Vila e um samba no Arranco. Teoricamente, eu assinei nove na vila, mas já está legalizado e os 12 já estão registrados como meus.


Porque você não assinou esses três sambas?
Na época eu tinha sido punido pela ala de compositores da Vila por ter feito samba para a Grande Rio, que tinha o enredo sobre o Prestes e eu gostava muito do tema e a Vila estava com uns problemas na disputa de samba. Acabei punido por cinco anos e fiquei sem assinar os sambas. Eu ganhei em 1999, 2000 e 2002.


De onde vem esse seu amor pela Vila Isabel?

Vem do meu pai. Eu cresci aqui dentro, meu pai me trazia pra frequentar a escola quando eu tinha sete anos. Depois, eu tive um amigo que a mãe dele era empregada no condomínio onde eu morava - o nome dele era Andre também. Ele era da bateria mirim e começou a me trazer para as saídas da bateria, me ensinou a tocar. Então, eu parei de desfilar em ala para desfilar na bateria, depois na ala dos compositores e agora no carro de som.

Qual o seu samba que você mais gosta?

Eu gosto muito dos que não foram pra avenida.O samba da Grande Rio sobre o Prestes de 98 é um “sambaço”, o da vila de 2001 (“Estado maravilhoso cheio de encantos mil”) que perdi e o samba de 96 (“Glórias gauchas”). Esses três, se tivessem ido pra avenida, eu acredito que seriam top de linha dos que eu fiz. Agora o que o pessoal mais gosta é o do “Bonde”, eu acho um bom samba, mas ele só é tão falado porque foi o primeiro. Ele inaugura um estilo na escola de fazer samba bonito e para frente, de repente se o samba do “Bonde” fosse no lugar do “Theatro” (2009) e vice-versa, talvez o samba do “Theatro” fosse mais forte.


Um Desfile inesquecível?

Parati (2004) e Theatro Municipal. Parati foi o desfile da minha vida como autor. Como componente foi Quizomba (1988) foi um “desfilaço”. “Parece até que foi ontem” (1985) que foi o primeiro desfile que eu fiz, sem me esquecer do samba do título também, “Soy louco por ti América” (2006), mas eu acho o desfile do “Theatro municipal” melhor do que o “Soy louco por ti América”. O desfile de Paraty foi o desfile da Vila Isabel, com a escola solta, cantando, com aquela evolução, um desfile nada técnico, uma bateria com a cara da escola. Acho que aquele foi um desfile que é um resumo da Vila Isabel.

Quando você começou imaginou que teria esse sucesso?

Outro dia estava conversando com o Evandro (Bocão) que às vezes vêm uns garotos e pede autógrafo, e nós ficamos “assim”, somos só um compositor. Nunca imaginamos, nós éramos amigos de torcida organizada que faziam pagode na porta de sala de torcida.


Por que você não escreveu ano passado?

Em primeiro lugar, porque o enredo era sobre o Noel, só iria escrever ano passado se fosse com o Martinho. Eu achava que o Noel, pela figura que ele era, tinha que ser cantado pelo Martinho, pela figura que ele é, se o Martinho me convidasse ótimo, mas não aconteceu. Chegamos até a ficar próximo de fechar uma parceria, mas não houve.


Você se sente responsável pela renovação da torcida da vila, já que você é professor e muitos alunos acabam torcendo pela escola por sua causa?

Agora tem outros professores fazendo samba aqui também, isso está se multiplicando. Todo esse movimento a gente faz, acabamos falando na entrevista na primeira pessoa do singular, mas, tem que se falar na primeira pessoa do plural. Esse movimento quem começou isso tudo foi o Evandro, o time todo é responsável, porque o Wladimir também traz os alunos dele, o Leonel traz os alunos do SENAI que ele tem contato. Acho muito legal a gente ajudar a torcida da Vila Isabel a crescer na população mais jovem, mas todo mundo tem “um dedo” nisso. O Moisés também é responsável por esse processo com a reconstrução da escola no ponto de vista financeiro, administrativo, trazendo-a de volta para a mídia. Com a força da Vila Isabel, todos falavam que, no dia que ela voltasse e tivesse uma condição, seria uma potência, tanto que, até 2006, a Vila Isabel só tinha passado pelo desfile das campeãs apenas uma vez. Nos últimos cinco anos, nós voltamos no desfile das campeãs em 2006, 2007, 2009 e 2010. Em 2008, só não voltamos porque ocorreu um acidente e deixou um “buraco”, senão desfilaríamos novamente.

Mesmo sendo jovem você já é considerado um dos maiores compositores da Escola. Como você lida com tudo isso?

Temos que lembrar de Rodolfo de Souza, que fez “Quizomba, sonho de um sonho, os imortais”. O Rodolfo de Souza, na minha opinião, junto ao Martinho, ainda são os maiores compositores da escola, depois vem o Luís Carlos, só então que eu venho. Eu sou o Cafu e o Martinho é o Leandro, a gente ganha muito samba, mas os craques são outros, só temos mais vitórias, mas isso não representa nada. Temos títulos do Carnaval, mas o Leandro não tem titulo mundial e o Cafu tem. Então eu sou o Cafu, um cara esforçado, que procura fazer o melhor, mas não tem a genialidade de um Luís Carlos, Martinho e Rodolfo. Eles são imortais, eu sou um professor esforçado.

A disputa de samba é muito cansativa, já passou pela sua cabeça quando parar?

Passa, toda disputa, em parar e nunca mais fazer. Cada passada ruim do samba, cada fofoca que você escuta, dá vontade de parar. Cada vez que o samba vai bem, já pensamos no ano que vem, no que mexer para o próximo ano. Um dia, eu penso em ter outra função na escola, gosto da ideia de escrever enredo, de coordenar o carnaval. Compor é maravilhoso, gravar é maravilhoso, a disputa que é insuportávelmente cansativa e estressante.

Em 2006, seu samba foi alvo de críticas por conter palavras em espanhol e a Vila foi campeã do carnaval tendo como quesito samba-enredo como desempate. Você acha essa foi sua afirmação como compositor?


Para o compositor cada samba que ele faz é uma afirmação, tem gente que continua dizendo que aquele samba é ruim, tem gente que continua criticando samba em espanhol e batendo palma em Tupi-Guarani, Francês, inglês, yorubá, pode tudo. As nossas vitórias acabam fazendo com que as críticas sejam muito pesadas a eles. Quanto mais nós ganhamos, mais somos acusados de ter ganhado samba “roubado”, são pessoas que não vêm na quadra e vão para esquina e internet falar que ganha de uma forma ou outra. O que vale nisso tudo é a consciência e a minha é muito tranquila. Eu nunca pedi para ganhar samba. Sempre falo para quem julga samba: dê o samba para o melhor; se o melhor for o meu, ótimo. Não suporto concurso viciado e faço questão de nunca ganhar utilizando outro meio qualquer. Acho um samba legal que é muito criticado, talvez porque é nosso.

Expectativa para 2011?

A Vila está muito bem administrada. Quem acha que a Escola vai jogar na retranca, esquece, pois estamos muito bem servidos, temos a carnavalesca (Rosa Magalhães) que é a maior ganhadora da história do Sambódromo, temos o Marcelo Missailidis (Coreógrafo), o chão da Vila Isabel de sempre, a bateria com todas as heranças da Vila mais as inovações do Átila (Mestre de bateria), Ruth (Porta bandeira), Julinho (Mestre sala), Tinga (Intérprete). A Vila tem um ótimo time. Se Deus quiser, vamos escolher um bom samba, independente se for meu ou não. Hoje em dia, no Rio, se alguém quiser ganhar o Carnaval, tem que ganhar da Vila Isabel.

Sua opinião sobre o enredo para 2011?

Já vimos tantos enredos polêmicos... O enredo da Vila nasce polêmico, mas o desenvolvimento é bacana, tem sambas na disputa que podem fazer com que o enredo fique legal. A Vila Isabel vai brigar pelo Carnaval. Com os enredos sendo patrocinados, se você analisar um por um, a Vila pode não ter o melhor, mas não vejo nenhuma escola com um enredo muito melhor do que o da Vila. Estão todos no mesmo barco.


4 comentários:

  1. O André Diniz já virou referência no mundo do samba. Muito legal a entrevista, Leandro. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. O André realmente é O CARA da Vila!
    Sem os seus sambas os desfiles não são os mesmos!

    ResponderExcluir
  3. Parabéns, Leandro!

    Abraços,
    Zé Domingos.

    ResponderExcluir
  4. OLÁ!!!COMO FAÇO PRA CONSEGUIR O CONTATO DO COMPOSITOR André Diniz OU DE OUTROS. POIS SOU UNIVERSITÁRIA E ESTOU FAZENDO UM TRABALHO Q FALA TBM SOBRE "CABELOS" E GOSTARIA DE ENTRAR EM CONTATO COM ALGUM COMPOSITOR PARA PEDIR MAIS REFERÊNCIAS SOBRE O TEMA...POR FAVOR ME AJUDE ,SE VC TIVER...O MEU E-MAIL É: cris.f.razao@hotmail.com

    ResponderExcluir